AUTORA

A jornalista Ana Lavratti acumula experiência na mídia impressa, eletrônica e em comunicação institucional. Entre os cargos que ocupou, foi editora do Diário Catarinense, apresentadora do Jornal da TVBV e repórter da Band em SC – tendo realizado inúmeras coberturas ao vivo com transmissão nacional. Atualmente, é sócia do escritório Informação, através do qual presta assessoria de imprensa a clientes regionais e nacionais.

No âmbito da literatura, além de revisar várias obras, lançou em 2002 o livro “Seus Olhos – Depoimentos de quem não vê como você nunca viu”, no qual, a partir da biografia de deficientes visuais que frequentam a Associação Catarinense para Integração do Cego, aborda as dificuldades e a superação diária de quem convive com a cegueira. Com prefácio de Mario Prata, a obra teve tiragem de 5 mil exemplares e recebeu grande acolhida da imprensa e do público em todo o país.

DISCURSO DA AUTORA NO LANÇAMENTO DO LIVRO, EM 02.08.2012:

Prezadas senhoras, senhores, convidados, parceiros neste evento ou, a partir de agora, simplesmente meus amigos definitivos.

Algumas crianças crescem correndo na grama. Outras comendo o pó de um chão batido. E muitas, cada vez mais, assentadas na fofura de um sofá.

Eu, acreditem ou não, cresci sobre uma montanha de papel velho. Uma gigante montanha de gibis, livros e revistas que meu pai, na época proprietário de uma indústria de papel, recebia pra reciclar.

A cada semana, uma nova tonelada de livros e gibis povoava a minha imaginação. Ensinava o quanto um papel, mesmo esses, vendidos como refugo, poderiam conter, ensinar e inspirar.

Ali, nessas montanhas com mais de três metros de altura de papel acumulado, passei centenas de horas da minha infância. Me tornei imune à rinite e sinusite. E acima de tudo, esculpi feito origami meu destino e profissão.

De tanto decifrar gibis, aos 6 anos eu já era alfabetizada.

Com 20 anos, me despedia da UFSC, já graduada.

Tive, portanto, uma formação privilegiada. Então imaginem minha surpresa ao perceber tudo o que o “mano” Severo teria pra me ensinar com uma trajetória tão antagônica a essa, permeada por desafios extremos como a saudade de um pai que nem ao menos conheceu, a falta de estudo e do que há de mais banal, um documento de identidade.

Com ele, no desenrolar dessa história que agora compartilhamos com vocês, aprendi lições tão sábias quanto vitalícias: a humildade, a gratidão, o respeito à opinião contrária, atitudes tão demodés hoje em dia.

Ainda falta aprender meditação, que ele prometeu pra parte 2, e que o conserva assim, um menino, aos 80 anos de idade e 60 de profissão.

Sei que sou suspeita pra recomendar a leitura do livro, mas, sinceramente, não escondo o quanto desbravar essa história faz de nós pessoas melhores.

Pelo exemplo de quem sempre foi pró-ativo, nunca se acanhou diante dos desafios, nunca priorizou o lamento em detrimento da luta, e nem nos momentos de glória deixou de reconhecer que uma família unida é o maior patrimônio que podemos ostentar.

Obrigada, professor Severo, por teres sido tão pouco severo comigo. Obrigada pela paciência, pela amizade e por teres permitido todas as minhas intromissões nas tuas lembranças. E obrigada por dar esse volume, inestimável e inesquecível, à caixinha onde guardo meus sonhos… promovidos a possíveis.

A ele, e a todos vocês, meus amigos, a minha mais sincera gratidão.

ARTIGO DA AUTORA, PUBLICADO NO DIÁRIO CATARINENSE NO DIA DO ESCRITOR, 25.07.2013