O rádio era um sonho, uma ambição, uma tentação

Thaís Teixeira

O caminho já é conhecido e o entrevistado também. Chego por volta das 14 horas ao Residencial Mário Quintana, no Estreito, sem uma pauta pronta e com meia dúzia de ideias na cabeça. Eurides Antunes Severo me espera para uma conversa, eu estou preocupada e nervosa. Apenas um gravador e uma agenda com algumas perguntas rascunhadas me acompanham. Lembro da sua palestra e de como ele me ganhou como admiradora quando disse que “Só os loucos, só os poetas, só os irresponsáveis conseguem mudar alguma coisa”.

Subo pelo elevador e vou em direção ao enorme corredor, até encontrar o número 104. Dona Nivalda me espera com a porta aberta e um sorriso bastante receptivo. Cumprimenta-me e convida-me a entrar. Antunes chega em seguida vestindo um suéter azul e calça comprida. Sou acompanhada pelos dois até o escritório com centenas de livros, dois computadores e um microfone, o mesmo que tem em estúdios de rádio.

Trocamos algumas palavras antes de começar a entrevista. Fico mais tranquila e começo com uma pergunta simples: Quem é Antunes Severo hoje? Ele dá um sorriso e responde de prontidão: “Alguém tentando encontrar as coisas”. Não era bem isso que esperava ouvir, quero saber mais sobre seu íntimo, aprofundar o que já havia lido em seu livro e ouvido na palestra. Insisto na mesma pergunta e ele revida: “Hoje eu sou um pesquisador. Pesquisador, particularmente, na área de comunicação”.

Com vivos olhos azuis e a voz firme, Antunes ainda parece o mesmo menino que saiu do arroio Itapevi, fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, para fazer história na Região Sul do país. Olho para as minhas perguntas e a maioria tem a ver com a vida profissional. Bato pé em querer extrair o máximo possível de seu lado pessoal mas não sei muito bem como fazer isso.

Curiosidade. Se eu pudesse definir Antunes em um único adjetivo diria que é curioso. Ele se compara ao repórter, fala que sempre existe alguma coisa que precisa saber, que quer saber por necessidade profissional e também pessoal. O desafio o instiga e inspira, busca olhar à frente daquilo que está fazendo.

“Enquanto se procura há sempre o desafio e a importância. Depois que a gente descobre alguma coisa, ela fica óbvia. Então os grandes problemas só existem enquanto a gente não entende eles. Na hora que a gente entendeu o problema, ele deixou de ser um problema. Por isso que eu acho que a gente tem que ficar sempre atento às coisas que estão rodando por aí”.

Entre os oito e dez anos Antunes descobre em casa a invenção que muda a sua vida. O RCA Victor, primeiro modelo de rádio que conheceu, intriga o menino. Quer a todo custo saber como aquela geringonça funciona.

“O rádio precisava de energia para funcionar. Demorei para descobrir isso. Queria saber como entrava a voz da pessoa no rádio. Até os 14 anos era um sonho, mas era também uma ambição, uma tentação, uma coisa que eu imaginava fisicamente. Cheguei até a sonhar uma vez ou outra, mas não era nada concreto”.

Morando numa região em que a única oportunidade de crescimento era a lavoura, Antunes Severo resolve ir em busca de seus sonhos longe dali. Em 1948, aos 16 anos, analfabeto e sem documentação alguma, ele partiu para Rosário do Sul. Lá dá os primeiros passos em direção ao seu futuro como radialista.

Descubro esses fatos lendo o livro Antunes Severo – O menino do arroio do Itapevi.  Mais de cem páginas fazem viajar para dentro da história de Antunes Severo, o comunicador, administrador, publicitário e executivo. Quero saber quais suas impressões sobre a obra de Ana Lavratti, como foi para ele se ler.

“Quando ela [Ana Lavratti]  me apresentou a primeira versão do que havia entendido da minha história eu fiquei surpreso. Até meio assustado. É muita coisa pra tão pouco tempo. Será que eu não andei atropelando as coisas? Pra mim o livro hoje faz sentido porque ele tem um certo jeito de andar. É sempre buscando uma solução, sempre buscando entender, sempre buscando transformar aquilo numa atividade que produza prazer, que produza resultados financeiros e principalmente resultados sobre o uso da inteligência”.

Olho um tanto assustada para a minha agenda. Os rascunhos não me davam mais base para fazer boas perguntas. Respiro fundo e percebo que era chegada a hora de improvisar, entrar de cabeça na nossa conversa e deixar a minha curiosidade falar mais alto. A entrevista seguiria o rumo que ele ditasse e eu deixaria me levar pelas suas palavras. Continuo focada no livro e pergunto da possibilidade de surgir um Antunes Severo 2.  Ele me responde positivamente e me deixa ansiosa para ver como será esse segundo volume.

“Vou te contar uma coisa que era uma ideia e que agora é uma decisão. A gente vai transformar o livro num e-book. Até o final do ano eu quero que o livro já esteja totalmente na internet, e que nós tenhamos ferramentas para poder lançar o Antunes Severo 2 em 2013,  com todo um tratamento diferenciado de fotografia, incluindo um estudo mais adequado de foto e principalmente incluindo muita coisa de áudio”.

“A ideia do Antunes Severo 1 era centrada no rádio que era a minha atividade durante o período de radialista. Mas tem o lado do jornalista, tem o lado do publicitário, tem o lado do executivo, do professor que têm histórias também, e tem o lado do cidadão, o pai de família. Tem histórias muito cativantes com relação ao meu relacionamento com os filhos. Acredito que aí tem assunto para se trabalhar e ter mais coisas para serem conhecidas e aprofundadas”.

Tenho a sensação de que, involuntariamente, Antunes Severo chegou ao ponto que eu queria. Sorri e peguei o gancho que precisava para conhecer a pessoa que estava na minha frente. Pergunto, então, quem é o Antunes cidadão, qual sua rotina.

“Agora eu to aqui conversando contigo, daqui a pouco estou no computador editando matéria. Hoje eu passo grande parte do meu tempo útil fazendo esse gerenciamento do site Caros Ouvintes, principalmente agora que ele está se transformando em um portal”.

Procuro não me alongar muito e caminhar para o final da entrevista. Não fico satisfeita, preciso de algo mais substancial sobre aquele homem que se tornou um dos ícones da comunicação brasileira. Enquanto ele me conta sobre a fundação do Instituto Caros Ouvintes, viajo observando suas feições já desgastadas pelo tempo. Penso em um bom fechamento, a pergunta decisiva, aquela que deixará a última e melhor mensagem. Vêm à mente alguns programas de entrevista em que os entrevistadores fazem um bloco de perguntas e respostas rápidas, que chamamos de entrevista ping-pong. Começo:

 

Um hobby:

Curiosidade de ler, de buscar coisas.

Livro preferido:

Os livros que mais se destacaram pra mim são aqueles com a história, o conhecimento, a sabedoria oriental. A história do Buda, a história do Gandhi. Gosto também da literatura francesa, principalmente aquela que mexe bastante com os costumes da França… e aqui dos brasileiros, Jorge Amado. Sem contar da minha curiosidade pela física Quântica.

Religião:

Espiritualista

Um filme:

Antunes: De filme eu sou mal… E o vento levou?

Uma música:

Antunes: Viagem. Uma música da década de 1950 mais ou menos, é um samba muito bonito .

Um ídolo:

Não penso em ídolo, mas uma pessoa que tem muito pra me ensinar que é o Gandhi. Mahatma Gandhi.

Uma filosofia de vida:

Buscar sempre, estar sempre alerta.

Uma paixão:

Paixão pela conquista das pessoas. Pra mim é uma coisa fundamental, buscar conquistar pessoas.

Algum vício:

Todos. Atualmente não tenho nada que eu considere como vício, mas como hábitos, costumes. Talvez minha maior dificuldade [por exemplo] seria se eu não tivesse meios de comunicação a minha disposição. Nós assinamos três jornais, lemos duas revistas mensais, temos uma cultura de televisão, principalmente programas produzidos como documentários. Acompanhamos alguns noticiários, mas é horrível a produção de televisão hoje e jornal. Assinamos esses três jornais e eu leio mais uns cinco pela internet.

Orientação Política:

Minha orientação política é o princípio da democracia básica, da democracia fundamental. Para me enquadrar na vida política brasileira eu diria que sou  esquerdista do meio para baixo.

O maior desafio:

Ter conhecimento dos limites, estar atento aos limites. Limites de possibilidade e limites de limitações.

A maior conquista:

Ter percebido isso.

Agora sinto-me satisfeita. Salvo a gravação e recebo um elogio altamente gratificante. Antunes gosta da condução da entrevista e pede uma cópia do áudio. Despeço-me dele e nos agradecemos pela conversa.

Hoje, com 80 anos de vida e mais de 60 de profissão, Eurides Antunes Severo foi um dos co-fundadores da agência de publicidade Propague, uma das primeiras de Santa Catarina e uma das únicas da época que ainda se mantém com os mesmos donos. Eleito o melhor animador de auditório no Paraná, locutor de pelo menos em dez rádios, comanda o Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia. Um currículo de peso e um nome marcante.

Os cabelos grisalhos e a pele já desgastada não se sobressaem à jovialidade e à empolgação que Antunes Severo mostra; e a facilidade em comunicar-se não nega a sua escolha profissional. O menino do arroio Itapevi mostra à nova geração uma vida de conquistas possibilitada, sobretudo, pela persistência e pelas parcerias que fez pelo caminho.

 “Quando penso porque as coisas têm dado certo para mim, sei que devo muito a todos os que me ajudaram. Por isso cultivo a solidariedade, o respeito e o valor que as outras pessoas têm. Se eu reconheço o valor de alguém, o natural, o imediato é que essa pessoa seja reconhecida também”.

O empreendedor e o comunicador, duas faces que se misturam. Entre elas, ainda se vê o menino lavrador, o cabo do exército, o marido, o pai e o amigo. Seus sonhos continuam, transcendem o esperado e surpreendem. Na agenda, bastante lotada, seu próximo plano é escrever a biografia de Adolfo Zigelli, o profissional que implantou o radiojornalismo profissional em Florianópolis. Como diria sua biógrafa Ana Lavratti, “Antunes não conhece a palavra aposentadoria”.

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