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E que bom filme é sua vida, exibido aos leitores pela direção segura da Ana Lavratti!

Niterói, 11 de junho de 20

 Caro Antunes Severo:

Acabo de ler “Antunes Severo: o menino do arroio Itapevi”. Isto significa que acabei de fazer uma viagem maravilhosa, não nas ondas hertzianas normais porém noutras que são completamente inefáveis, envolvendo sonhos, persistência, caráter, adversidades, vitórias – esses ingredientes de que são construídas as grandes vidas, aquelas que, se vê, valeram ser vividas e se constituem em preciosos exemplos a serem seguidos.

Vi aí, pelo menos um herói – o protagonista, claro – e duas heroínas: Dona Lahir e sua “Pretinha”.

Dona Lahir, me permito homenagear por tudo o que ela representou, dignificando a condição de mulher e de mãe; pela luta contra todas as vicissitudes; por olhar de frente a carranca de um destino cruel, e transformá-lo numa plataforma de solidez moral e de coragem da qual saltaram seus filhos, em especial o menino que brilharia tanto em tudo o que tem feito.

Sua esposa, homenageio por ver implícito na leitura do livro o quanto ela tem representado em sua vida, confirmando aquela velha história de que “por detrás de todo grande homem…”.

Meu pensamento é muito cinematográfico; quando escrevo, e quando leio, vão-me passando diante dos olhos todas as cenas, como num filme. E que bom filme é sua vida, exibido aos leitores pela direção segura da Ana Lavratti!

Vi nitidamente a torre com o cata-vento da vila, que ligava o céu das transmissões radiofônicas à vida concreta do menino; vi o capinador de ruas, o lenhador; vi o soldado, leal porém orgulhoso de seus princípios e acalentador de sonhos, que até à cadeia do quartel o levariam.

Vi o arco de iniciativa, trabalho e (por que não?) um pouco de sorte, que ligou o menino analfabeto ao empresário bem sucedido, passando pelo galã que encantava as jovens, o incrível repórter, o locutor seguro, o noticiarista competente, o animador de auditórios, o idealizador e realizador de projetos, o chefe exigente porém humano, o coordenador de equipes  – e tantos outros Antunes Severo dentro do nada severo Antunes.

Admirei, destacadamente, o homem do rádio, não somente no sentido de um trabalho ou uma profissão, mas no sentido de uma missão. Uma missão de amor à palavra falada e lançada, ao mesmo tempo com carinho e força, nos ouvidos, corações e mentes de milhares de ouvintes.

Lendo o livro, fui das quase lágrimas a risos nas passagens jocosas.

Minha esposa, Lúcia, com quem comentei várias passagens, acabou por compartilhar esse prazer de ver contada sua vida – que com certeza daria pra fazer muitos outros livros.

Fiquei contente de ver alguns pontos de convergência em nossas vidas: o amor pelo rádio é uma, evidentemente. Outras duas: minha mãe, falecida aos 85 anos, era espírita, e por intermédio dela tive acesso a leituras como “Nosso Lar”. Na juventude tive oportunidade de participar da ajuda a algumas instituições, como você e sua esposa ainda fazem em relação ao Núcleo Espírita que tem justamente esse nome da famosa obra que terá sido ditada ao Chico Xavier pelo espírito de André Luiz.

A terceira convergência: sua dissertação de mestrado tem como objeto de estudo comparativo a Fundação Getúlio Vargas, instituição na qual trabalhei por 19 anos, tendo ingressado por concurso como escriturário e saído como professor, para ir para a Uerj, na qual me aposentei, na área da filosofia. Lúcia, hoje também aposentada, continuou na FGV por toda a sua vida de trabalho, chegando à chefia dos Recursos Humanos.

Obrigado pelo livro e, especialmente, pelo conteúdo: o exemplo de sua vida.

Permito-me fazer-lhe dois pedidos. O primeiro: continuar a ceder-me espaço no Caros Ouvintes, forma pela qual me sentirei honrado em contribuir com seus projetos. O segundo: juntar-me aos milhares de amigos que você soube fazer durante sua bonita e produtiva vida.

Grande abraço! Carino